Globalização é um fenômeno resultante da transformação da Terra em uma única aldeia, de modo que uma pessoa situada em qualquer ponto do planeta, pode acompanhar tudo o que está acontecendo no resto do mundo, bastando para isso ligar o seu televisor ou conectar-se à rede mundial de computadores. Aliás, caso queira e tenha recursos, essa mesma pessoa pode viajar para o outro lado oposto do globo em algumas poucas horas, voando em aeronaves supersônicas.
Entretanto, talvez, o maior problema decorrente desse fenômeno é a chamada globalização da economia, através da qual ocorre a migração das fortunas dos mega-investidores, que transferem bilhões de dolares de um extremo a outro do orbe terrestre pelo símples toque de um computador.
Esse capital instável – também conhecido como capital volátil – visa apenas o rendimento de ágio, viajando velozmente pela Terra na ânsia do acréscimo de meros pontos percentuais nas taxas de juros oferecidas pelos governos das nações emergentes, e quando sai repentinamente de um país cuja economia é débil, pode causar ali verdadeira catástrofe decorrente da escassez de alimentos, da inflação acelerada, do desemprego e de outras seqüelas dessa natureza, penalizando sobretudo as pessoas mais pobres.
Diante dessa realidade, pode-se perceber que a existência dos mega-investidores está ligada à distribuição e ao emprego da riqueza mundial, gerando gritante injustiça social, pois enquanto uma privilegiada minoria detém cerca de 90% do capital e dos bens de consumo, a grande maioria dos povos da Terra está passando por sérias privações, incluindo a fome e a miséria.
Efeito King Kong – Comentando essa questão na revista Veja, o colunista Luiz Felipe de Alencastro lembra que “tempos de espanto sempre abrem espaços para assombrações. As perplexidades geradas pela crise de 1929 deram lugar à vários fantasmas. O mais trágico dentre eles levou à II Guerra. O mais inocente tomou corpo em Hollywood sob a forma de King Kong. O gorilão invadiu os cinemas em 1933, quando os efeitos do crash de 1929 se desdobravam em dramas sociais. anos atrás, a revista parisiense Les Cahiers du Cinéma propôs uma afamada chave interpretativa para o filme. Trazido de uma ilha perdida, situada fora dos mercados, mediante expedientes escusos de aventureiros que haviam engrupidos uma comunidade nativa, King Kong representa a desorganização do comércio mundial, a irracionalidade do capitalismo irrompendo em Nova York. Nos meados dos anos 70, no início da recessão de um quarto de século que pensávamos estar terminando anteontem, King Kong foi de novo filmado. Desta vez os cenaristas americanos introduziram o tema da exaustão dos recursos naturais, dos estragos no meio ambiente.”
Mais adiante o colunista indaga: “E a crise financeira, e os bancos? Quem elegeu os banqueiros?” E explica que este é “o título de um livro editado nos Estados Unidos (Who Elected the Bankkers? Surveillance and Control in the World Economy, Cornell University Press, Ithaca,(1997). Seu autor, Louis W. Pauly, não é um esquerdista françês que enxerga mensagens anticapitalistas nos filmes com grandes gorilas destruindo Nova York. Trata-se de um cientista político americano dotado de grande experiência profissional no setor bancário privado e no FMI. Longe do populismo de direita e de esquerda, que sacrifica a integração econômica internacional no altar do nacionalismo. Pauly faz algumas ponderações interessantes. Para ele, é nefasto o segredo que envolve as decisões dos ministros de Finanças e dos governantes engajados na globalização. Favorável à abertura dos mercados, ele defende maior cobrança política dos cidadãos.”
Contribuição do Espiritismo
Por entender que o Espiritismo pode oferecer preciosos subsídios para a questão econômica mundial, e prosseguindo com a nossa meta de pesquisar assuntos de interesse geral nas obras de Allan Kardec, retiramos de O Evangelho Segundo o Espiritismo** as respostas para as seguintes indagações:
P. A riqueza é causa ou conseqüência dos males terrenos?
R. “Se a riqueza é causa de muitos males, se exarcerba tanto as más paixões, se provoca mesmo tantos crimes, não é a ela que devemos inculpar, mas ao homem, que dela abusa, como de todos os dons de Deus. Pelo abuso, ele torna pernicioso o que mais útil lhe poderia ser. É a conseqüência do estado de inferioridade do mundo terrestre. Se a riqueza somente males houvesse de produzir, Deus não a teria posto na Terra. Compete ao homem fazê-la produzir bem. Se não é um elemento direto de progresso moral, é, sem contestação, poderoso elemento de progresso intelectual.”
P. Como pode o homem alcançar esse progresso?
R. “O homem tem por missão trabalhar pela melhoria material do planeta. Cabe-lhe desobstruí-lo, saneá-lo, dispô-lo para receber um dia toda a população que a sua extensão comporta. Para alimentar essa população que cresce incessantemente, preciso se faz aumentar a produção. Se a produção de um país é insuficiente, necessário será buscá-la fora. Por isso mesmo, as relações entre os povos constituem uma necessidade. A fim de mais as facilitar, cumpre sejam destruídos os obstáculos materiais que os separam e tornadas mais rápidas as comunicações. Para trabalhos que são obra dos séculos, teve o homem de extraír materiais até das entranhas da terra; Procurou na Ciência os meios de os executar com maior segurança e rapidez. Mas, para os levar a efeito, precisa de recursos: a necessidade fê-lo criar a riqueza, como o fez descobrir a Ciência. A atividade que esses mesmos trabalhos impõem lhe amplia e desenvolve a inteligência que ele concentra, primeiro, na satisfação das necessidades materiais, o ajudará mais tarde a compreender as grandes verdades morais. Sendo a riqueza o meio primordial de execução, sem ela não mais grandes trabalhos, nem atividade, nem estimulante, nem pesquisas. Com razão, pois, é a riqueza considerada elemento de progresso.”
P. Por que não são igualmente ricos todos os homens?
R. “Não o são por uma razão muito símples: por não serem igualmente inteligentes, ativos e laboriosos para adquirir, nem sóbrios e previdentes para conservar. É, aliás, ponto matematicamente demonstrado que a riqueza, repartida com igualdade, a cada um daria uma parcela mínima e insuficiente; que, supondo efetuada essa repartição, o equilíbrio em pouco tempo estaria desfeito, pela diversidade dos caracteres e das aptidões; que, supondo-a possível e durável, tendo cada um somente com que viver, o resultado seria o aniquilamento de todos os grandes trabalhos que concorrem para o progresso e para o bem-estar da Humanidade; que, admitido desse ele a cada um o necessário, já não haveria o aguilhão que impele os homens às descobertas e aos empreendimentos úteis. Se Deus a concentra em certos pontos, é para que daí se expanda em quantidade suficiente, de acordo com as necessidades.”
P. Admitido isso, pergunta-se por que Deus a concede a pessoas incapazes de fazê-la frutificar para o bem de todos?
R. “Aínda aí está uma prova da sabedoria e da bondade de Deus. Dando-lhe o livre-arbítrio, quis ele que o homem chegasse, por experiência própria, a distingüir o bem do mal e que a prática do primeiro resultasse de seus esforços e da sua vontade. Não deve o homem ser conduzido fatalmente ao bem, nem ao mal, sem o que não mais fora senão instrumento passivo e irresponsável como os animais. A riqueza é um meio de o experimentar moralmente. Mas, como, ao mesmo tempo, é poderoso meio de ação para o progresso, não quer Deus que ela permaneça longo tempo improdutiva, pelo que incessantemente a desloca. Cada um tem de possuí-la, para se exercitar em utilizá-la e demonstrar que uso sabe fazer dela. Sendo, no entanto, materialmente impossível que todos a possuam ao mesmo tempo, e acontecendo, além disso, que, se todos a posuíssem, ninguém trabalharia, com o que o melhoramento do planeta ficaria comprometido, cada um a possui por sua vez. Assim, um que não na tem hoje, já a teve ou terá noutra existência; outro, que agora a tem, talvez não na tenha amanhã. Há ricos e pobres, porque sendo Deus justo, como é, a cada um prescreve trabalhar a seu turno. A pobreza é, para os que a sofrem, a prova da paciência e da resignação; a riqueza é, para os outros, a prova da caridade e da abnegação.”
P. Deus será justo, dando a riqueza para os mega-investidores e outros poderosos que fazem péssimo uso de suas riquezas?
R. “É exato que, se o homem tivesse uma única existência, nada justificaria semelhante repartição dos bens da terra; se, entretanto, não tivermos em vista apenas a vida atual e, ao contrário, considerarmos o conjunto das existências, veremos que tudo se equilibra com justiça. Carece, pois, o pobre de motivo assim para acusar a Providência, como para invejar os ricos e estes para se glorificarem do que possuem. Se abusam, não será com decretos ou leis suntuárias que se remediará o mal. As leis podem, de momento, mudar o exterior, mas não logram mudar o coração; daí vem serem elas de duração efêmera e quase sempre seguidas de uma reação mais desenfreada. A orígem do mal reside no egoísmo e no orgulho; os abusos de toda espécie cessarão quando os homens se regerem pela lei da caridade.”
Destaque:
Uma figura em uma das páginas da Revista, descreve “Menino Morto” da série “Retirantes”, de Cândido Portinare, que retrata a desigualdade Social.
O Artista, à época, assim retratou a pobreza em uma das regiões do Brasil, entretanto, espelha com fidelidade a desigualdade social ainda existente em diversas regiões da Terra, devido ao egoísmo de grande parte dos portadores da riqueza.
Matéria Extraída da RIE -
Revista Internacional de Espiritismo