sábado, 23 de abril de 2011

RETRATO DE HERODES.

                  Belém, 22 de Abril de 2011.
         

          Há longos anos já nos pés da Palestina
          Pusera uma grilheta o Imperador romano.
         Que poderio tinha essa ave de rapina!
         Bastava a asa abrir no topo da colina
         E sacudia a terra, o ar, o oceano…

        Ora, na Palestina Herodes era o rei.
        Simples testa de ferro, um mísero vassalo,
        Este rei se vendera a Augusto e sua grei,
        E agora ao povo hebreu impunha a nova lei
        Com a ponta da espada e as patas do cavalo!


        O déspota cruél matara os seus rivais,
        Alguns filhos, cunhado, esposas puritanas,
        E para proteger seus dias joviais
        Cercou Jerusalém com pedras colossais,
        E só abria a porta às legiões romanas.

        Embora fosse ateu e desprezasse o rito,
        Para agradar o povo e tê-lo mais à mão
        Ergueu pra Jeová um templo de granito,
        Mais belo que os de Roma e maior que os do Egito,
        E fez da Palestina um ponto de atração!


        E pra compensar Roma a inteligente hiena
        Perspicaz construíu com fabulosa pompa
        Um circo resplendente, um olímpica arena,
        E convidou Augusto à contemplar a cena,
        As lutas bestiais aos repiques das trompa!…

        Temia o velho rei perder a majestade,
        Por isso não dormia e tinha até visões!
        No silêncio do quarto ele via a verdade,
        Espíritos rivais na meia claridade
        Caírem sobre si com lanças e arpões!


        E esses vultos febris, fantasmas de gigantes,
        Tendo ainda no corpo as marcas da tortura,
        Tiravam-lhe a coroa e riam, trovejantes,
        Ao ver do rei tirano os olhos suplicantes,
        A boca retorcida e o corpo com tremura!


        Mas no dia seguinte agarra-se ao trono…
        E proibiu o povo andar em grupo à noite!
        A coroa era sua e o trono tinha dono!
        E aumentou a polícia e aumentou-lhe o abono,
        E foi ver as prisões erguendo um grande açoite!

        E Herodes, o obsidiado, ouviu o comentário
        Que o faria rugir, tempestuosamente!
        Nascera em Palestina um Divino Emissário,
        Libertador do povo, um revolucionário,
        A quem vieram ver os Magos do Oriente!


        A treva preparara a armadilha fatal;
        E Herodes já em transe ergueu-se, furioso,
        Sem perceber em torno espíritos do mal,
        Com rosto de animais, os reis do baixo Astral,
        A injetar-lhe fluido escuro e vaporoso!


        O transe era perfeito; e o médium, exaltado,
        Convocou com urgência os seus milicianos:
        Iriam degolar com a espada ou machado
        Na cidade, no campo, em qualquer povoado,
        Bebês angelicais com menos de dois anos!

        Mas fracassou da treva a luta contra a Luz.
        José em sonho ouviu mensagem do Infinito:
        “_ Herodes já procura o Anjo de olhos azuis!
        Fuji com vossa esposa e o menino Jesus
        Montados num burrico em direção do Egito!”


        Não ouso descrever dos pequenos heróis
        A morte tão brutal na mão dos vis guerreiros!
        Que triste essa manhã… Calaram os rouxinóis…
        Mas essas Almas hoje esplendem como sóis,
        São mártires do Cristo! Os mártires primeiros!…


        Poema inédito de Guerra Junqueiro recebido
              
 mediunicamente por Jorge Rizzini.


        Matéria extraída da revista RIE(Revista
                 Internacional de Espiritismo).  



              

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